Alimentos ultraprocessados: novo consenso europeu reforça os riscos para a saúde cardiovascular

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Um novo documento de consenso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) coloca os alimentos ultraprocessados no centro da prevenção cardiovascular. Mais do que calorias, açúcar ou gordura, o grau de processamento dos alimentos passa a ser reconhecido como um fator importante na avaliação do risco cardiometabólico.

O que são alimentos ultraprocessados?

São formulações industriais produzidas a partir de ingredientes refinados, aditivos, aromatizantes, emulsificantes, corantes e outras substâncias utilizadas para aumentar a durabilidade, a palatabilidade e a praticidade.

Segundo a classificação NOVA, diferem dos alimentos in natura ou minimamente processados porque passam por diversas etapas industriais e frequentemente apresentam pouca ou nenhuma matéria-prima em sua forma original.

Entre os exemplos estão refrigerantes e bebidas açucaradas, salgadinhos industrializados, biscoitos recheados, embutidos, refeições prontas congeladas, cereais matinais açucarados e alguns iogurtes com diversos aditivos e aromatizantes.

O que mudou no entendimento da ciência?

Durante muitos anos, as recomendações nutricionais concentraram-se principalmente na quantidade de gorduras, açúcares, sal e calorias.

Estudos recentes, porém, indicam que o próprio processamento industrial pode influenciar a saúde independentemente do perfil nutricional. Isso significa que dois produtos semelhantes em calorias ou macronutrientes podem ter impactos diferentes quando um deles é ultraprocessado.

O impacto sobre o coração

O consenso aponta uma associação consistente entre maior consumo de ultraprocessados e fatores de risco como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações do colesterol e triglicerídeos, doença hepática gordurosa e doença renal crônica.

Essas condições, por sua vez, estão relacionadas ao aumento do risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e outras doenças cardiovasculares.

O parecer do cardiologista

O Dr. Alexandre Quadros destaca que a prevenção cardiovascular precisa considerar não apenas pressão, colesterol, glicemia e peso corporal, mas também a qualidade e o grau de processamento dos alimentos.

A orientação não significa adotar uma dieta excessivamente restritiva, e sim privilegiar escolhas mais próximas dos alimentos naturais e incorporar essa estratégia ao cuidado cardiovascular.

Existe relação direta com doenças cardiovasculares?

É importante fazer essa diferenciação. As evidências disponíveis são predominantemente observacionais e, portanto, não permitem estabelecer definitivamente uma relação de causa e efeito.

Mesmo assim, os estudos apresentam associação consistente entre maior consumo de ultraprocessados e maior incidência de doenças cardiovasculares, doença arterial coronariana e mortalidade cardiovascular. Também existe possível associação com fibrilação atrial, embora sejam necessários mais estudos.

Como reduzir o consumo de ultraprocessados?

Algumas atitudes simples podem ajudar: priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, planejar as refeições, cozinhar mais em casa, substituir refrigerantes por água ou bebidas sem açúcar, observar a lista de ingredientes e realizar mudanças graduais que possam ser mantidas no longo prazo.

A prevenção cardiovascular vai além da contagem de calorias ou do controle do colesterol. O grau de processamento dos alimentos também merece atenção.

Uma alimentação baseada principalmente em alimentos naturais, frutas, verduras, legumes, grãos integrais e preparações caseiras, com menor participação dos ultraprocessados, representa mais uma ferramenta para proteger o coração e promover saúde no longo prazo.

Dr. Alexandre Quadros
Médico Cardiologista Intervencionista

Referência científica: Guasti L, Bonaccio M, Abreu A, et al. Ultra-processed foods, lifestyle management, and cardiovascular diseases: A clinical consensus statement... European Heart Journal. 2026;47:3456–3473.

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